Vencedor do Prêmio Jabuti, o escritor carioca discutiu Estado, exclusão e cultura popular como forças em disputa
Bonito parou para ouvir Luiz Antônio Simas. Nesta sexta-feira (10), o historiador, escritor e compositor carioca segurou uma plateia lotada por uma hora e meia durante sua participação na 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB), tecendo um percurso que atravessou cultura popular, resistência, religiosidade e o papel das políticas públicas na preservação das tradições brasileiras. Em determinados momentos, a plateia assistiu ainda a algo especial em uma mesa literária: Simas cantou, entoando versos e trechos de samba-enredos de escolas de samba cariocas para ilustrar suas ideias.
Sincretismo e samba, um só corpo
Um dos eixos centrais da fala foi o sincretismo religioso e sua relação profunda com a história do samba. Simas, que é mestre em História Social pela UFRJ e babalaô no culto de Ifá, conduziu o público por essa trajetória com a naturalidade de quem soma décadas de pesquisa sobre religiosidades de matriz africana à vivência prática dessas tradições.
Autor de mais de trinta livros, entre eles O Corpo Encantado das Ruas, Umbandas: uma história do Brasil e o Dicionário da História Social do Samba (parceria com Nei Lopes que recebeu o Prêmio Jabuti de Livro do Ano em 2016), Simas também assina cerca de quarenta canções gravadas por artistas como Maria Rita e Marcelo D2. Não é, portanto, um estudioso que observa a cultura popular de fora: é parte dela.
Ao público de Bonito, explicou o que move sua obra. “Eu trabalho basicamente com a construção de modos coletivos de vida a partir das culturas populares do Brasil”, disse, referindo-se às festas e folguedos que atravessam o país. Para ele, o Brasil se estruturou como um projeto de Estado nação desigual, concentrador de renda e propriedade, domesticador de corpos não brancos. “O que me interessa não é exatamente estudar isso, é tentar entender como, diante desses projetos de exclusão, foram construídos sentidos coletivos de vida pela beleza, pela festa, pela celebração”, completou.
A festa como semente
Questionado sobre o paralelo entre uma feira literária e esse projeto de resistência cultural, Simas não hesitou. Para ele, encontros como a FLIB vão além da celebração do livro: são celebração do encontro em si, da ocupação de espaços públicos e do fortalecimento do vínculo entre leitores e obras. Destacou também a dimensão pedagógica e afetiva desses eventos, sobretudo quando envolvem crianças e adolescentes.
O historiador contou que, quando mais jovem, acreditava que esse tipo de mobilização poderia comover multidões inteiras. Hoje, sua leitura é outra: mesmo entre um grupo pequeno de crianças dispersas em uma feira literária, basta que algumas se interessem pela leitura para que o efeito se multiplique. “Aí de repente três daqueles trinta convencem mais três, que vão convencer mais três”, exemplificou, defendendo que o primeiro passo é dessacralizar o livro e transformá-lo em objeto cotidiano de afeto.
fotos: Luana Chadid
Evento oficial
Em 2026, a FLIB homenageia a escritora Lygia Fagundes Telles e o escritor, editor e agitador cultural douradense Luciano Serafim, que faleceu em 2025 e teve participação marcante na história da feira.
A edição conta com o apoio de instituições públicas e privadas, incluindo recursos viabilizados por emendas parlamentares, além da participação da Caixa, Sesc MS, Sebrae, Sanesul, Prefeitura Municipal de Bonito, Câmara Municipal de Bonito, Ministério da Cultura e Governo do Estado de Mato Grosso do Sul.
A FLIB integra o Calendário Municipal de Eventos de Bonito e, desde a publicação da Lei Estadual nº 6.457, de 11 de agosto de 2025, também faz parte do Calendário Oficial de Eventos de Mato Grosso do Sul.
Serviço
10ª Feira Literária de Bonito (FLIB)
Data: 7 a 12 de julho de 2026
Local: Praça da Liberdade, Bonito (MS)
Programação: flibonito.com







