Autor de “Torto Arado” participou de encontro no Palco Literário e foi recebido por uma longa fila de leitores durante a sessão de autógrafos
Um dos escritores mais celebrados da literatura brasileira contemporânea, Itamar Vieira Junior reuniu cerca de 150 pessoas no Palco Literário da 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB), nesta sexta-feira (10). Diante de uma plateia atenta, o autor de “Torto Arado” falou sobre literatura, memória, vida no campo e as experiências que atravessam sua produção.
Antes da apresentação, em entrevista concedida à imprensa, Itamar comentou o processo de criação do romance e a importância de sua convivência com comunidades quilombolas para a construção da narrativa.
“A imaginação se alimenta da vida. Esse contato com as comunidades quilombolas e com o trabalho de campo enriqueceu aquilo que eu poderia apresentar aos leitores. Foi a partir dessa experiência que consegui dar densidade e profundidade a uma tentativa anterior de escrever essa história”, afirmou.
Nascido em Salvador, Itamar é geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Essa trajetória atravessa sua produção literária, marcada por personagens ligados à vida rural, à luta pela terra, às comunidades tradicionais e às desigualdades que permanecem pouco observadas no país.
Na entrevista, o escritor revelou que a primeira versão de “Torto Arado” começou a ser escrita cerca de 20 anos antes da obra publicada. Na época, produziu aproximadamente 80 páginas em uma máquina de escrever Olivetti Lettera 82, que ainda guarda. O texto inicial era alimentado principalmente pelas histórias ouvidas dentro de casa.
Itamar é o primeiro integrante da família paterna a nascer na cidade. Seu pai foi criado no campo até os 15 anos, enquanto seus avós e bisavós viveram do trabalho agrícola em terras de outras pessoas. Anos depois, a atuação profissional permitiu que ele encontrasse, em campo, situações que dialogavam diretamente com essas memórias familiares.
“Uma coisa era a memória, outra foi conseguir ir para o campo, trabalhar e fazer analogias entre aquela memória e a vida real. Essa experiência foi fundamental para que eu pudesse apresentar aos leitores um Brasil que muitas vezes não é observado, não é conhecido, que é esquecido e colocado de lado”, explicou.
Literatura que amplia horizontes
Ainda durante a entrevista, ao falar sobre a presença da terra, da memória e dos conflitos sociais em seus livros, Itamar destacou que a literatura parte de experiências particulares, mas pode alcançar uma dimensão coletiva.
“A literatura se debruça sobre a experiência humana. Uma história própria, particular, pode reverberar e ser lida também como uma história coletiva”, disse.
O escritor ressaltou que o leitor participa ativamente da construção da narrativa ao imaginar personagens, espaços e acontecimentos. Para ele, esse envolvimento amplia a possibilidade de conhecer outras formas de existência.
“A leitura exige muito da imaginação de quem lê, e essa exigência termina deixando uma marca. Nossa vida é um intervalo, uma vírgula diante da história da humanidade, mas, quando nos propomos a conhecer outras histórias, temos a sensação de que vivemos muito mais, em tempos e espaços diferentes”, afirmou.
Encontro com os leitores
Depois da participação de cerca de 1 hora no Palco Literário da FLIB, uma longa fila se formou para a sessão de autógrafos. A primeira pessoa a chegar foi Sidneia Rodrigues Pereira, moradora de Jardim e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais da UFMS, em Aquidauana.
Ela veio a Bonito acompanhada dos amigos Paulo Junior de Arruda Oliveira e Fernanda Nagel Lima, acadêmicos do curso de Letras da UEMS, em Jardim. Sidneia contou que a obra de Itamar dialoga diretamente com sua pesquisa sobre vozes negras muitas vezes silenciadas, desenvolvida a partir de autoras como Carolina Maria de Jesus.
A primeira leitura de “Torto Arado” aconteceu no início de 2025, quando ela ingressou no mestrado. Desde então, Sidneia retorna com frequência ao romance, porque cada leitura provoca novas conexões com sua pesquisa e com a produção de outros artistas e escritores negros.
Vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos, “Torto Arado” foi traduzido para mais de 20 países e transformou Itamar Vieira Junior em uma das principais vozes da literatura brasileira atual. O escritor também é autor do livro de contos “Doramar ou a Odisseia” e do romance “Salvar o Fogo”.
fotos: Luana Chadid
Evento oficial
Em 2026, a FLIB homenageia a escritora Lygia Fagundes Telles e o escritor, editor e agitador cultural douradense Luciano Serafim, que faleceu em 2025 e teve participação marcante na história da feira.
A edição conta com o apoio de instituições públicas e privadas, incluindo recursos viabilizados por emendas parlamentares, além da participação da Caixa, Sesc MS, Sebrae, Sanesul, Prefeitura Municipal de Bonito, Câmara Municipal de Bonito, Ministério da Cultura e Governo do Estado de Mato Grosso do Sul.
A FLIB integra o Calendário Municipal de Eventos de Bonito e, desde a publicação da Lei Estadual nº 6.457, de 11 de agosto de 2025, também faz parte do Calendário Oficial de Eventos de Mato Grosso do Sul.
Serviço
10ª Feira Literária de Bonito (FLIB)
Data: 7 a 12 de julho de 2026
Local: Praça da Liberdade, Bonito (MS)
Programação: flibonito.com







