Grupo viajou cerca de 200 km para participar da feira e prestar tributo ao escritor, que celebra 30 anos de seu primeiro livro publicado
Na Praça da Liberdade, uma homenagem ganhou forma de árvore nesta quarta-feira (08), durante a 10ª edição da Feira Literária de Bonito (FLIB). No lugar de folhas, versos breves escritos por crianças e adolescentes indígenas da Aldeia Aldeinha, comunidade Terena de Anastácio/MS.
Um dos principais nomes da literatura indígena brasileira, Daniel Munduruku é escritor, professor e ativista, autor de mais de 60 livros. Sua trajetória, dedicada à valorização da ancestralidade, da tradição oral e da diversidade dos povos indígenas, o transformou em referência para leitores, educadores e jovens autores em todo o país.
Integrantes da ABRAAI – Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil, os estudantes viajaram cerca de 200 quilômetros para participar do evento e conhecer pessoalmente o autor, que celebra os 30 anos da publicação de seu primeiro livro. A homenagem reuniu aldravias inspiradas em sua trajetória literária.
Compostas por seis versos de uma palavra cada, as aldravias são marcadas pela concisão e pela abertura de sentidos. Na feira, o formato ganhou a voz dos estudantes, que transformaram a escrita em gesto de admiração, pertencimento e afirmação cultural.
Fundada em 1933, a Aldeia Aldeinha está situada em contexto urbano e abriga a Escola Estadual Indígena Guilhermina da Silva, espaço importante de educação, cultura e resistência Terena na região. A presença dos alunos na feira aproximou sala de aula, criação literária e representatividade, em um encontro entre uma nova geração de autores e uma referência nacional.
Emoção compartilhada
Para a coordenadora do projeto, Noelaine Dias Lemes, estar na FLIB ao lado de Munduruku foi uma experiência de grande valor para alunos, familiares e educadores. “É uma experiência muito enriquecedora. A gente nunca imaginaria sair de Anastácio e encontrar o Daniel. As crianças podem conversar com ele, fazer perguntas e ver que ele é uma pessoa protagonista na sociedade, que tem visibilidade, que tem uma voz ouvida. E ele é indígena. Isso faz com que elas se inspirem e pensem que, no futuro, uma delas também pode estar em uma feira como essa”, afirmou.
A homenagem emocionou também o escritor. Ele destacou que receber o carinho de estudantes indígenas teve um significado especial e mostrou que sua literatura tem alcançado públicos diversos.
“É uma alegria muito grande saber que o trabalho que a gente faz está alcançando todo mundo: crianças não indígenas, crianças indígenas, adultos, professores. Está acertando no alvo. Para usar uma metáfora da floresta, a gente lança a nossa flecha sem saber exatamente qual alvo ela vai atingir. Mas, quando vê esse tipo de homenagem, esse reconhecimento e essa emoção, entende que as nossas flechas estão atingindo muitos alvos ao mesmo tempo”, disse.
Professor da Escola Indígena Guilhermina da Silva, Reinaldo Rohdt explicou que a participação dos estudantes na feira concretiza um trabalho desenvolvido em sala de aula a partir da poesia, da cultura e da valorização da identidade Terena. Segundo ele, a presença do grupo também ajuda a romper estereótipos historicamente construídos sobre os povos originários.
“Trouxemos nossos alunos para que eles tenham essa visão de como é um escritor indígena e de que eles podem chegar onde Daniel está, levar a representatividade do povo Terena, que muitas vezes é invisibilizado pela sociedade, pelo preconceito e pelo racismo. Eles também são protagonistas da feira, como autores das suas aldravias”, destacou.
Literatura e natureza
À noite, Daniel Munduruku voltou à programação no Palco Literário com a conferência “Literatura e Natureza: duas forças em diálogo”, com acessibilidade em Libras. Diante do público, o escritor ampliou as reflexões iniciadas durante a tarde e conduziu uma conversa sobre literatura, ancestralidade e os vínculos profundos entre o ser humano e a natureza.
Em sua fala, a literatura apareceu como território de encontro entre tempos, povos, histórias e modos de existir. Ao aproximar natureza e narrativa, Munduruku reforçou a importância de escutar os povos originários não como lembrança do passado, mas como presença viva, produtora de pensamento, conhecimento e futuro.
A participação do escritor dialoga diretamente com a proposta da 10ª edição da FLIB, que tem como tema “Literatura: linguagens, histórias e memórias”. Em Bonito, o encontro com os estudantes e a conferência no Palco Literário reforçaram a literatura como espaço de escuta, criação e reconhecimento.
Evento oficial
A FLIB, em 2026, presta homenagem à escritora Lygia Fagundes Telles e ao escritor e editor douradense Luciano Serafim, que faleceu em 2025 e teve participação marcante na história da feira.
A edição conta com apoio de instituições públicas e privadas, incluindo recursos viabilizados por emendas parlamentares, além da participação da Caixa, Sesc MS, Sebrae, Sanesul, Prefeitura Municipal de Bonito, Câmara Municipal de Bonito, Ministério da Cultura e do Estado de Mato Grosso do Sul.
A FLIB integra o Calendário Municipal de Eventos de Bonito e, desde a publicação do decreto estadual nº 6.457, de 11 de agosto de 2025, também faz parte do Calendário Oficial de Eventos de Mato Grosso do Sul, reforçando sua relevância no cenário cultural e educacional do estado.
Serviço:
10ª Feira Literária de Bonito (FLIB)
Data: 7 a 12 de julho de 2026
Local: Praça da Liberdade, Bonito/MS
Programação disponível em https://flibonito.com




Fotos: Luana Chadid.




