O Ministério da Cultura e Governo Federal apresentam

Na FLIB, Mariana Salomão Carrara costura literatura, humor e humanidade em conversa com o público

Encontro mediado pelo Clube de Leitura de Bonito passou por obras recentes e diferentes momentos da trajetória da escritora

Mariana Salomão Carrara encontrou na 10ª Feira Literária de Bonito uma plateia que já conhecia de perto suas histórias. Com o Palco Literário lotado, na noite de sábado (11).  e muitos leitores acompanhando a conversa com diferentes livros da autora em mãos, o encontro ganhou o tom de uma troca construída pela leitura. Entre os presentes, 40 integrantes do Clube de Leitura de Bonito participaram do bate-papo mediado por Gabriela Junqueira e Thais Lazzarotto, que partiu de “Cláudia Vera Feliz Natal” e percorreu também temas, personagens e inquietações de obras anteriores.

À vontade diante do público, Mariana falou sobre literatura, morte, amizade, maternidade, questões ambientais e os encontros entre a escrita e sua atuação como defensora pública. Ao longo da conversa, explicou como experiências, pesquisas, notícias e histórias conhecidas durante o trabalho podem despertar inquietações que, mais tarde, encontram espaço na ficção.

Em “A árvore mais sozinha do mundo”, romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, a autora parte da realidade de famílias que vivem e trabalham em áreas rurais, abordando questões como o uso de agrotóxicos, a contaminação e os impactos ambientais. Para construir a narrativa, Mariana contou que realizou pesquisa de campo e conversou com trabalhadores, buscando compreender não apenas os acontecimentos, mas também a linguagem, os afetos e a rotina daquele universo.

A escritora destacou, no entanto, que a pesquisa não determina todos os caminhos do livro. Para ela, a literatura também depende da liberdade de imaginar, deslocar palavras e criar sentidos que não precisam permanecer presos à realidade que deu origem à história.

Outro ponto bastante discutido foi a alternância de narradores na obra. Mariana explicou que as mudanças de voz foram surgindo de acordo com a movimentação das personagens pela casa e com as diferentes formas de cada uma perceber os acontecimentos. A escolha permite que uma mesma experiência seja observada por vários ângulos e amplia as possibilidades emocionais da narrativa.

Já “Cláudia Vera Feliz Natal”, seu lançamento mais recente, levou ao debate as contradições do sistema de justiça e a forma como a linguagem jurídica pode afastar justamente as pessoas que mais precisam ser ouvidas. Defensora pública, Mariana contou que procurou levar para o livro as tensões de quem trabalha dentro desse sistema, mas também o olhar de quem chega a uma audiência sem compreender plenamente os procedimentos, os termos ou o que pode esperar daquele encontro.

A autora ressaltou que existem profissionais comprometidos com um trabalho cuidadoso e humano, mas reconheceu os limites e as frustrações enfrentadas por quem busca respostas na Justiça. Em sua literatura, essas experiências aparecem sem soluções simples, revelando personagens atravessados por dúvidas, burocracias e tentativas de preservar a própria dignidade.

Mesmo diante de temas densos, o humor ocupa espaço importante em “Cláudia Vera Feliz Natal”. Mariana contou que essa leveza não surgiu como uma estratégia previamente calculada, mas como parte de sua forma de escrever.

“Tem situações tão pesadas que, se você não enxergar com alguma leveza, pode ser esmagado pela dor. O humor tem esse papel: você fica desarmado e, de repente, consegue acessar aquela dor de uma maneira mais aberta”, afirmou.

A morte e o luto, recorrentes em seus livros, também atravessaram o bate-papo. A escritora falou sobre a literatura como uma possibilidade de registrar presenças, revisitar lembranças e lidar com a sensação de desaparecimento. A ausência, em suas narrativas, não encerra necessariamente as relações, mas transforma a maneira como os personagens permanecem na vida uns dos outros.

A amizade, especialmente entre mulheres, apareceu como outro eixo importante de sua obra. Mariana refletiu sobre como os laços construídos fora das relações familiares também sustentam vidas, criam pertencimento e ajudam as personagens a atravessar experiências de perda, maternidade, solidão e mudança.

A participação do público reforçou o clima de proximidade do encontro. Leitores fizeram perguntas sobre a construção das personagens, a arquitetura dos romances, o uso do humor e as múltiplas vozes presentes nos livros. Entre exemplares novos e antigos levados para a sessão, ficou evidente que a conversa não se limitava a um único lançamento, mas alcançava uma obra já acompanhada com atenção por quem estava na plateia.

Criado em 2023 a partir de encontros entre amigas, o Clube de Leitura de Bonito retomou suas atividades em 2025 e ampliou sua presença por meio das redes sociais. Hoje, o grupo realiza encontros mensais, promove conversas com escritores e mantém uma dinâmica aberta e coletiva para a escolha das obras. Na FLIB, a presença de seus integrantes mostrou a força de uma comunidade formada ao redor dos livros e ajudou a transformar o encontro com Mariana em uma conversa entre autora e leitores de sua obra.

Evento oficial

Em 2026, a FLIB homenageia a escritora Lygia Fagundes Telles e o escritor, editor e agitador cultural douradense Luciano Serafim, que faleceu em 2025 e teve participação marcante na história da feira.

A edição conta com o apoio de instituições públicas e privadas, incluindo recursos viabilizados por emendas parlamentares, além da participação da Caixa, Sesc MS, Sebrae, Sanesul, Prefeitura Municipal de Bonito, Câmara Municipal de Bonito, Ministério da Cultura e Governo do Estado de Mato Grosso do Sul.

A FLIB integra o Calendário Municipal de Eventos de Bonito e, desde a publicação da Lei Estadual nº 6.457, de 11 de agosto de 2025, também faz parte do Calendário Oficial de Eventos de Mato Grosso do Sul.

Serviço

10ª Feira Literária de Bonito (FLIB)
Data: 7 a 12 de julho de 2026
Local: Praça da Liberdade, Bonito (MS)
Programação: flibonito.com

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